Reestruturação da dívida <br>é inevitável
No Seixal teve lugar na quinta-feira, 9, um debate sobre «A dívida, o euro e os interesses nacionais», com Ângelo Alves, da Comissão Política do Comité Central do PCP.
«A nossa dívida começou a aumentar quando se iniciou a preparação do País para a entrada para a Comunidade Económica Europeia (CEE), quando Portugal, poucos anos depois da Revolução de Abril, é sujeito, por duas vezes, à intervenção do FMI», lembrou Ângelo Alves, sublinhando que «em 1980 a dívida representava 29 por cento do Produto Interno Bruto» (PIB), e que «no momento da adesão à CEE cresceu para 52 por cento» e «depois da entrada do euro em circulação estava nos 67 por cento».
«Hoje a dívida situa-se nos 132 por cento», denunciou, referindo que, «com este grau de endividamento, iríamos pagar até 2020 – se não acontecesse aquilo que é inevitável, que é a reestruturação da dívida portuguesa – 60 mil milhões de euros em juros da dívida sem a amortizar» e que «nos últimos cinco anos a dívida portuguesa cresceu 80 mil milhões de euros».
Sobre as causas do endividamento, Ângelo Alves disse serem «muito claras» e que têm a ver «com a política de direita, com a destruição do aparelho produtivo nacional, com as privatizações e a entrega aos privados não só das empresas públicas, que estavam ao serviço do povo e do País, mas sobretudo dos seus altíssimos lucros», bem como «com o processo de integração capitalista europeu».
«A nossa entrada na CEE e no euro fragilizou profundamente a nossa economia e abriu as portas a todas as chantagens e pressões dos chamados mercados», sublinhou o dirigente comunista, acusando «o poder político em Portugal, o arco da desgovernação [PS, PSD e CDS], de estar coordenado com a UE durante todos estes anos» na retirada «de parcelas da nossa soberania e de instrumentos que poderíamos ter para fazer face a uma crise que já vinha de trás».
Alternativa
Ângelo Alves referiu ainda que a «alternativa» passa «pela ruptura com a política de direita», sendo «a renegociação da dívida portuguesa uma questão central». Neste sentido, esclareceu, o «PCP defende a redução em 50 por cento do valor nominal dos montantes em dívida», ou seja, 112 mil milhões de euros para investir no sector produtivo do País» e 75 por cento do serviço da dívida, «o que libertaria mais 6,7 mil milhões de euros». «Isto não quer dizer que deixássemos de pagar juros, mas teríamos de rever todo o calendário de pagamento da dívida», que teria de ser ajustado, «e que as taxas de juro teriam de ser indexadas àquilo que são as nossas exportações», acentuou, acrescentando: «Se indexarmos o pagamento do serviço da dívida àquilo que são as nossas exportações, estamos a eliminar o elemento de chantagem que existe dentro do mecanismo de domínio político que é a dívida».
Defendeu, por outro lado, a necessidade de «pôr o sector financeiro ao serviço do povo e do País, e não ao serviço do grande capital», e de «preparação e estudo para a saída do euro, seja por decisão de outros ou por decisão própria». «A primeira medida que um governo patriótico e de esquerda tem que tomar é, de facto, garantir que estamos preparados e escudados contra o terrorismo económico que vai ser feito contra o nosso País», anteviu.
Por tudo isto, concluiu, «as próximas eleições são muito importantes e decisivas para o futuro do nosso País», tendo o povo nas suas mãos «a possibilidade de abrir caminhos de mudança». «Aquilo que a realidade na Europa demonstra é que a luta de classes está ao rubro e que é a força dos seus povos que vai determinar o rumo dos acontecimentos», disse.
Criar emprego
No sábado, 12, João Ferreira, deputado do PCP no Parlamento Europeu, participou numa sessão pública nos Lavadouros de Buarcos, no concelho da Figueira da Foz, onde denunciou o enorme ataque a que o povo português tem sido submetido pelos sucessivos governos, e salientou a importância da renegociação da dívida, da necessidade de aumentar a produção, criar emprego, recuperar para o Estado sectores estratégicos e devolver ao povo o que lhe tem sido roubado.
Hoje, 16, às 21 horas, João Ferreira participa numa sessão pública, em Alpiarça, junto à Casa do Povo, sobre «A União Europeia, o euro, o exemplo da Grécia».